Nesse último post do ano, cumprirei uma promessa que fiz há muito tempo: abordar de forma mais séria o tema mais caro de minha vida desde que adquiri minha deficiência física em 2016
Quem não me conhece e bate o olho em mim pela primeira vez logo vê que alguma coisa está errada.
Eu tenho hemiparesia espástica à esquerda, uma sequela neurológica de um tiro que levei na cabeça em 2016.
Contei essa história aqui no primeiro post do blog.
Essa condição faz com que eu tenha u fraqueza muscular e alteração na sensibilidade de todo o lado esquerdo do meu corpo. Isso dificulta minha marcha e no momento tira da a função de meu braço e mãos esquerdos.
Se permanecerei assim para sempre ou se voltarei a ter a condição física que eu tinha antes do tiro só o tempo, a ciência e a minha fé poderão dizer. Mas independente disso o fato é que estou deficiente.
Imagem de quando eu era normal…Imagem de como eu pretendo ser um dia…
Mas PCD, deficiente, PNE ou aleijado?
Estar deficiente nos leva à primeira questão quando o assunto é capacitismo. Como devo ser chamado? Como pessoas como eu devem ser denominadas?
Há quem fique constrangido de se referir a mim ou a qualquer pessoa como “deficiente”. Deve haver alguém que fique ofendido em ser chamado assim mas falando apenas por mim posso dizer que não fico ofendido e até mesmo me autodenomino assim na maior parte das vezes.
Mas como a gente não pode ser resumido apenas ao que possuímos ou a nossas características físicas estabeleceu-se por politicamente correto usar a sigla PCD – Pessoa com Deficiência.
Logo em seguida a abordagem tida como politicamente correta demonstrou capacitismo ao tentar emplacar uma outra sigla sem usar a palavra “deficiência” por acreditar que deficiência e inferioridade seriam palavras sinônimas. E assim surgiu a sigla PNE – Portador de Necessidades Especiais. Essa sim me soa como uma denominação altamente capacitista e ofensiva.
E por quê? Simplesmente porque minhas necessidades não são especiais, e sim tão normais e básicas quanto as de qualquer pessoa normal! Minhas necessidades são: comer beber, trabalhar, ter amigos esposa e filhos como qualquer pessoa tida como normal.
Mas é verdade que vivemos no Brasil um período de trevas intelectuais onde o poder vigente nos incentiva a ser politicamente incorretos. Portanto, se você é partidário dessa extrema-direita neofascista racista e misógina que nos governa não me admira se você me xingar de “aleijado”.É como me xingo quando estou frustrado e com raiva de mim e também a pior ofensa que alguém pode receber pois ela carrega um capacitismo tão forte que ela pressupõe uma percepção coletiva de que ter um membro disfuncional significa ser um pessoa inferior.
O que é capacitismo?
Temos muitas coisas par conversar sobre capacitismo mas vamos começar tentando defini-lo. Por enquanto não lançarei mão do que a academia já escreveu sobre esse assunto mas tentarei fazer uma definição com base no que a experiência de ter adquirido uma deficiência ao longo da vida.
Mais do que um mero preconceito contra os PCD’s o capacitismo é a presunção de incapacidade que se tem de uma pessoa que porta uma deficiência adquirida ou congênita.
Está dada a definição e nas próximas semanas tentarei dmonstrá-la com exemplos um pouco mais práticos.
EMaria Eugenia do BBB1 tinha membros disfuncionais que não a impediram de voar!
Após ouvir Senzutsu– o 17º disco da banda que completa 46 anos de uma carreira gloriosa foi necessário fazer (ou refazer) antigas considerações e tentar reembarcar no estilo do falecido blog Corta esse Cabelo, Luigi!, blog que apaguei para parecer um homem sério na investigação social da PF no concurso de 2012.
Quando o Iron Maiden solta um disco novo algumas velhas convicções são reforçadas.
Vamos a elas:
Enquanto houver mundo haverá Iron Maiden!
É verdade que o planeta parece estar às avessas. Estamos governados por gente que adotou a negação da verdade como método e usa a repetição de mentiras como forma de estabelecimento de novas verdades e manutenção no poder . Nos tempos de hoje, querem nos convencer pela força que a Terra é plana, que há chips nas vacinas e que militares são os únicos honestos e patriotas lutando contra um conspiração internacional comunista. Na cabeça de muitos estamos em guerra.
Mas não estamos…
E eis que quando tudo está de cabeça pra baixo vem o Iron Maiden vai reaparece e faz o que melhor sabe fazer: discos novos.
Ouvir Senzutsu é um sopro de esperança de quereencontraremos o caminho para sermos o que podemos ser: humanos. Humanos com falhas virtudes e defeitos mas vibrantes e com vontade de viver e de criar ainda que apenas repetindo o que já sabemos que dá certo. Mesmo com um pé na tradição a Donzela continua nos ensinando a criar coisas novas e projetar um olhar para o novo…
Depois do rufar de tambores japoneses a faixa de abertura e o álbum decolam e a sensação de ouvir a canção de abertura é de que ela voa comandada pelo vocalista- piloto-de-Boeing e esgrimista Bruce Dickinson na sua melhor forma aos 69 anos. E eu menciono a idade dele aqui apenas para me adequar um clichê de pauta que precisa ser definitivamente sepultado.
Não existe o “bom e velho” Iron Maiden! Existe o Iron Maiden e ele é bom! Ponto final!
A sensação de ouvir a faixa Senzutsu é a de estar voando! E isso. Para alguém que precisou reaprender a andar como eu e que ainda tenta melhorar na marcha é simplesmente libertador. Quase chorei na primeira audição da música.
Quando chega a faixa Lost in a a Lost World eu me dou conta que a Donzela apesar de manter um pé na tradição se permite ousar. Me remete ao progressivo de Seventh Son of a Seventh Son mas radicaliza a ponto de eu pensar estar ouvindo Pink Floyd.Mentira. Estou exagerando. Mas história é contada em avanços e recuos e assim o universo se expande.Contraindo e recuando…
A faixa de abertura com seus tambores japoneses me deu um prenúncio de que vinha coisa grande. Tudo o que conhecemos do Maiden está ali: o galope do baixo do boss Steve Harris, a guitarra maltratada e inaudível de Janick Gers e a beleza e simplicidade da melodia da guitarra do Adrian Smith.
2) Enquanto houver Iron Maiden haverá mundo
Meu primeiro contato com o Maiden foi aos 15 anos ao furtar um CD de meu irmão.Era o disco A Real Live One. Disco gravado na turnê do Fear of the Dark – disco que abriu o caminho da banda para além dos velhos nichos puritanos e conservadores do metal e deu um status global à banda.
Não foi amor à primeira vista como nada que realmente a gente ama nessa vida. Precisei ouvir umas três vezes até me abrir para aquele som mas quando o fiz de coração aberto minha vida nunca mais foi a mesma. A Donzela se tornou parte de minha vida, formou minha personalidade e me apresentou a música da forma como eu acho que ela precisa ser: simples e expressar os sentimentos que não posso descrever com palavras.
3) Enquanto houver Iron Maiden eles farão shows no Brasil
Felizmente, nosso reencontro já está marcado!.Eles confirmaram estar na abertura do Rock in Rio em setembro de 2022.
Claro que resta saber se nossos compententíssimos e mitológicos (alerta de deboche!) governos vencerão a pandemia ao ponto de termos shows de rock novamente. Se pelo menos o Maiden fosse gospel ou tocasse a música-tema da abertura da Malhação!(deboche novamente!)
Eu tenho 42 anos….
Quatro anos a menos que minha banda favorita e hoje sei que alguns sonhos não poderei realizar nesta vida tais como ser bombeiro, policial civil, filantropo, astronauta, jogador de futebol ou Mister Universo.
Muitos n˜entenderiam porque me emociono tanto com essas coisas.Mas o que tenho a dizer sobre isso é que ser fã do Iron Maiden é ser parte de uma família.E se você não quer fazer parte dela tudo bem! Pode ficar com teus Indies teus soft rocks teus funks teus golpes e teus sertanejos.
Na nossa família estamos muito bem sem você!
Eu tenho 42 anos….
Quatro anos a menos que minha banda favorita e hoje sei que alguns sonhos não poderei realizar nesta vida tais como ser bombeiro, policial civil, filantropo, astronauta, jogador de futebol ou Mister Universo(sem deboche pois todos sabem que sou um fisiculturista fracassado!)
Mas um dia poder tomar uma cerveja com esses caras e agradecer por eles continuarem a fazer parte de minha vida e me ajudarem a ser o que sou hoje é algo que ainda dá pra sonhar!. É um sonho que continuarei a alimentar enquanto me for permitido estar vivo e enquanto eles lançarem discos bons como esse!
Pois bem. Comecemos do começo. Todos temos um nome e eu também carrego um. Meu nome é Luís Márcio Pires Alvarenga e farei 42 anos em algum momento de agosto. Minha mãe queria me chamar Luís e meu pai queria me chamar Márcio ou vice-versa e virei Luís Márcio. Coincidência ou não, tanto Luís quanto Márcio são palavras que fazem alusão a “guerreiro”.
Acreditem, nada nessa vida é coincidência! Mas afinal, quem somos nós?
Basta um nome para identificar esse aglomerado de células especializadas e organizadas em tecidos com funções específicas capazes de formar órgãos, sistemas e organismos complexos a partir da reorganização de cadeias de aminoácidos, obtendo energia em processos bioquímicos ancestrais? Então é isso que somos?
Se não for pra beber cerveja depois da prova e posar com o estetoscópio eu não estudava Medicina!
Mas se eu disser que somos mais do que isso? Que também somos o lugar onde nascemos e vivemos, ou que também somos o que fazemos, ou o que e quem amamos, e a questão vai ganhando complexidade.
Do tempo em que eu xóvem e dava tiros letais em \”álvaros\” de papel.
Vivo em São Paulo, mas sou mineiro. Sou essencialmente mineiro com todos os vícios e as virtudes que a mineiridade traz consigo. Sou desconfiado, tímido e obstinado. Carrego comigo a resiliência inata do sertanejo e a humildade complexada do caipira embora eu seja uma pessoa vergonhosamente urbana e sem qualquer ligação com o campo.
Se eu falar das coisas que eu faço ou já fiz a coisa corre o risco de a narrativa sair do controle, já fui muitas coisas e ainda sou todas elas ao mesmo tempo!
Atualmente, sou um médico em formação. Mais precisamente acadêmico do segundo ano do curso de Medicina. Mas foi o último trabalho que tive que talvez seja o maior definidor ou confundidor de minha personalidade: sou agente de Polícia Federal aposentado por invalidez permanente após ser baleado na cabeça numa tentativa de latrocínio em Belém do Pará em 01 de junho de 2016. E assim chegamos ao tal do gato no saco preto.
Ao longo desses anos tenho tentado ressignificar traumas e encontrar sentido e propósito em tudo que aconteceu comigo, e esse blog é dedicado a me ajudar nessa caminhada reflexiva e no meu processo de cura. O objetivo aqui é que eu consiga organizar minhas ideias e voltar a fazer algo que há muito eu estava com muito receio de fazer: me expressar.
Daqui para frente publicarei um texto toda sexta-feira, com temas diversos que permeiam minhas vidas passada, presente e futura. Falarei de Medicina, segurança pública, política, reabilitação neurológica, capacitismo, deficiência física, futebol, música cinema e religiosidade que hoje são os temas que permeiam minha vida.
Falarei cada coisa em seu tempo, pois não há pressa para nada…
E que gato é esse no saco preto?
Primeiros traços do gato no saco preto
Recentemente, durante uma sessão de terapia eu descrevi assim a sensação física e visual de estar em coma ou em quase-morte e lutar pela vida. Passados 5 anos do trauma essas sensações e visões voltaram e aprendi a acessar aquele momento voluntariamente a partir de meditação e reviver o trauma e minha trajetória nesse estado de reabilitação permanente. Após uma dessas” visitas” voltei com uma súbita vontade de pintar – mesmo sem saber pintar – uma tela representando as cores e padrões que eu vi e senti durante aquele período.
E este é o semanário “Gato no Saco Preto!”onde toda sexta publicarei uma crônica e mostrarei o estado de construção de um acrílico sobre tela 60×80 cm de mesmo nome. Por enquanto vai só aparecendo um fundo…
Enfim… esse sou eu e esse é meu blog de férias.
Meu nome é Luís Márcio
Eu sou um soldado e preciso de uma guerra para lutar ou sou um animal preso no saco, lutando eternamente pra sair?
Depois de um breve inverno estou de volta. Ainda assimilando o frio de São Paulo depois de algum tempo morando em Belém.
Hoje voltei a pintar as tentar visitar as memórias do coma de 5 anos atrás. Nada falei sobre como foi construir e finalizar a primeira tela.Então já era hora.
O que está ali naquela tela abstrata pintada por um pessoa que nunca soube desenhar e pintar é minha experiência de coma.Não exatamente as imagens que presenciei mas as sensações de náusea, vertigem e sede.Por isso é uma tela desagradável.
O primeiro gato: Náusea e vertigem
quando terminei de pintá-la entendi que o processo havia sido apenas um ensaio. A náusea e a vertigem que eu queria representar estão lá de certa forma.É um quadro desagradável de se ver mas quem disse que só carregamos memórias agradáveis dessa vida?
Hoje entendo que ali está tudo errado em termos de memória visual do coma. Pra começar o Saco Preto não é preto e não é saco. A cada visita ao coma as imagens foram ficando nmais nítidas e as sensações foram mudando. O lugar não é escuro e sim multicolorido formando um fluxo de luz que leva a um desconhecido que por medo ou convicção decidi não visitar.Talvez fosse o outro lado, a tal Morte, mas preferi não conhecê-la pelo simples fato de que consegui encontrar motivos incríveis para continuar minha jornada em vida.Eu tinha a sensação de que eu ainda tinha muita coisa para fazer.Na época era uma sensaçãomas hoje é uma certeza!
Visualmente a segunda tela tende a ser mais agradável. Decidi me aventurar na tinta a óleo por acreditar que ela me daria a fluidez e a abstração mágica que estou buscando.
De fato pintar a óleo é bem mai divertido apesar do trabalho maior.
A tela, sendo a óleo traz um clima de desafio típico deste mês de agosto em que tanta coisa decisiva começã a acontecer em minha vida.Na tela continuarei trabalhando com certos padrões de espirais em sentido alternados e privilegiando uma cor por sessão de pintura.
Aliás hoje foi a primeira vez em que me permiti algumas inovações no protocolo de pintur.Fiz duas cores (azul e violeta) e usei bastante a mão esquerda pela primeira vez na tentativa de fazer meu cérebro entender que ainda possui mão braço esquerdo. Isso tornou a sessão de pintura mais cansativa mas não menos prazerosa.Fiquei satisfeito de ter botado meu cérbro para reconhecer novamente o lado hemiparético para depois quem sabe um dia ele conseguir novamente fazer uso do meu lado esquerdo.
Por outro lado, se com a pintura eu sei que caminho seguir, quanto a escrever não sei o que fazer por aqui pois tenho a sensação de que tudo que criei depois do coma das sequelas é muito mais “vomitado ” do que criado.Mas agora eu estou me cansando de vomitar coisas e queria buscar alguma beleza e harmonia no que pinto e no que escrevo.
E chega a hora de encerrar esse primeiro ciclo do Gato e consequentemente dar por finalizada a primeira tela.
Eu ainda não sei o que vou fazer nem com a tela e nem com o blog mas sinto que a semente que eu queria plantar nessas férias foi lançada ao solo.
Certamente não pararei de escrever mas a regularidade semanal talvez não seja fácil de suportar com o retorno das aulas na faculdade mas seguirei tentando desenvolver minha escrita por aqui.
Os poucos textos que estão aqui fazem uma síntese das principais reflexões que visitar semanalmente a memória do estado de coma provocou em mim. O blog permanecerá no ar embora eu ainda não saiba extatamente que rumo dar a ele.mas foi um bom teste serviu para me convencer que ainda posso escrever e qual plataforma usar. Mas ter um blog é um projeto antigo e desejo uma vida longa ao Gato no Saco Preto!
Pra mim tem sido um processo muito interessante lidar com as tintas depois de visitar semanalmente o saco preto. nas primeiras visitas fui tomado de medo e angústia acessando memórias que estavam muito bem guardadas e escondidas.
Mas com o passar do tempo fui acessando sensações de paz e calmaria a cada vez que visitava o saco e passei a sair de lá me sentindo tão forte e revigorado que visitar o saco preto às sextas se tornou o evento mais esperado de minha semana
Pintando o primeiro Gato:
ra mim tem sido um processo muito interessante lidar com as tintas depois de visitar semanalmente o Saco Preto. nas primeiras visitas fui tomado de medo e angústia acessando memórias que estavam muito bem guardadas e escondidas do tempo em que estive em coma.
Mas com o passar das semanas fui encontram paz e um sensação de bem-estar indescritível e passei a sair de lá cada vez mais confiante e revigorado. Foi um ciclo incrível. Mas é hora de encerrá-lo. Se tem uma coisa que eu aprendi bem nesse tempo é que certas coisas a gente precisa soltar e simplesmente deixar ir pois o novo só vem quando a gente deixa o velho ir embora. Quando tomei essa consciência, tudo começou a acontecer de forma formidável e minha vida pessoal e profissional. Mas para isso foi preciso reviver os traumas e olhá-los em um nova perspectiva, mais amadurecida e menos vitimista. Fazer luti de si mesmo não foi tarefa fácil até eu finalmente perceber que eu não morri em 2016. O que aconteceu acontaceu e teve um pro propósito que hoje consigo enxergar com clareza. Quanto à tela foi um belo teste. Entendi finalmente que o coma não ´w um saco e muito menos é preto e é isso vou buscar na próxima tela assim que as novas tintas chegarem pois da mesma forma que migrei o blog do Blogger para o WordPress, entendi que deveria passar a trabalhar com tint a óleio em vez de acrílico.Talvez assim eu consiga representar melhor o que estou tentando transmitir sobre a experiência do meu coma
Pintando primeiro Gato Sméagol: exemplo de pessoa com apego excessivo ao velho e que não sabe se abrir para o novo
Sobre a tela final eis o resultado. Pra mim foi um ensaio muito válido. De alguma forma ela transmite a inquietação e a angústias das primeiras visitas ao Saco Preto. Tenho certeza que a prõxima será bem diferente e mais agradável.
Na semana passada falei de sinais e coincidências. Nessa semana me dei conta do tamanho de minha presunção e soberba. Fato é que ousei achar que poderia ensinar algo que não pode ser ensinado e ainda que pudesse ser não faria sentido algum. Digo por um motivo óbvio que só me dei conta agora: os sinais que fazem sentido pra mim podem não fazer sentido para os outros pois cada um tem uma história e uma trajetória única e o caminho cabe a cada um encontrá-lo. E por que estou falando disso? Porque essa semana um fato muito curioso me ocorreu. Eu nem lembrava de ter feito inscrição mas fiz uma prova de seleção para a Liga de Neurologia da minha faculdade. Fato é que fui aprovado e a Neurologia entra em minha rota bem no meio da minha graduação. Se esse será ou não meu caminho só o tempo e os sinais dirão, mas que seria uma narrativa incrível eu não tenho dúvidas! No fim das contas, talvez seja disso que nos ocupamos de fazer com nossas vidas: construir histórias e narrativas. Um pensamento que me ocorreu é que em breve estarei às voltas dos questionamentos de meus filhos sobre quais caminhos tomar como por exemplo que profissão seguir e qual vestibular prestar. Aqui meu lugar de fala ficará confuso mas vamos tentar. Sou engenheiro eletrônico e de telecomunicações. Bom…. não sei se sou isso de fato mas pelo menos o diploma guardado aqui na gaveta me permite dizer tal coisa. Fato é que eu nunca trabalhei nem com eletrônica e nem com Telecomunicações. Passei os 5 anos de faculdade querendo fazer cinema e finalmente quando me formei tentei a sorte na produção cinematográfica. Consegui ser o produtor executivo de um filme que quase ninguém viu e aspirante a roteirista com vários projetos não executados No cinema tive um trajetória meteórica que me levou do Nada ao Lugar Nenhum. Quer dizer, minto. Eu fiz um concurso pra ANCINE- Agência Nacional do Cinema, passei e virei um eficiente burocrata do governo federal… Certas perguntas eu só consegui responder depois de voltar do Saco Preto e duas das mais frequentes vou tentar responder aqui: 1)Por que decidi entrar para a Polícia Federal ? Em 2011 eu era um servidor dedicado e eficiente e dedicado do serviço público federal com estabilidade conquistada antes dos 35 anos de idade. Eu morava na Zona Sul do Rio de Janeiro e tinha um vida tranquila. Tão tranquila que um dia alguma coisa se quebrou dentro de mim e não vi mais sentido em nada do que eu fazia.Fizcomo todo bom barnabé que quer mudar de vida faz. Entrei no site da UnB/CESPE pr ver os concursos que iam rolar e encontrei o concurso nacional para agente da Polícia Federal. Li o edital e no dia seguinte eu estava matriculado em cursinhos preparatórios e comprei uma barra que instalei na porta do quarto para treinar pra prova física.
Eu não sabia explicar por que queria tanto aquilo mas não conseguia racionalizar muito. Ser agente da Polícia Federal era algo que eu TINHA que fazer. Me entreguei ao projeto e fui pra cima dos estudos pois me parecia a última chance de encontrar SENTIDO no serviço público. Eu só fui entender o que eu estava fazendo anos mais tarde. Em 2013 eu já tinha tomado posse e atendia no plantão da Delegacia de Polícia Federal de Altamira-PA quando me aparece um senhor idoso com roupas rasgadas e um chapéu destroçado dizendo que é agricultor e que quer comprar um espingarda para caçar. Meu primeiro desafio como policial foi explicar para aquele senhor para que servia a Polícia Federal, como era a regulação da aquisição de armas de fogo e que o que ele pretendia com a arma era praticar um crime ambiental. Depois falei do Estatuto do Desarmamento e no fim da conversa ao invés de comprar uma espingarda nova o convencia entregar uma arma velha para a Campanha de Desarmamento. E foi nesse dia que eu entedi o que estava fazendo…
Eu finalmente fazia parte de algo em que eu verdadeiramente acreditava! Nesse dia lembro de voltar para o alojamento tão entusiasmado que me dei um presente no: fiz um miojo como ovo pra jantar. Meu envolvimento com o Estatuto do Desarmamento havia começado na campanha do plebiscito pelo fim da comercialização de armas de fogo. Foi a primeira vez que me envolvi com militância organizada. Nós perdemos aquele pleito para os conservadores. Não foi difícil assimilar aquela derrota afinal eu sempre fui ciente que pertenço a uma diminuta parcela privilegiada na qual predomina o pensamento conservador. Perdemos mas vida que segue e “a luta continua, companheiro…” E decidi lutar dentro do sistema. As pessoas diziam que a polícia não era lugar pra mim e que era lugar para pessoas cruéis, violentas e corruptas. Mas eu queria! Queria por que queria! Eu sentia que tinha uma coisa ali e essa coisa tinha me escolhido. Ë maravilhoso quando a coisa nos escolhe! Fazer escolhas nos dá a doce ilusão de que estamos no controle. Mas fato é que quase nunca estamos no controle. As coisas são o que são e não que poderiam ser nem o que talvez fossem. Para certas coisas a gente não escolhe a gente é escolhido… Por isso quando um de meu filhos me perguntar que caminho seguir vou responder que talvez não seja de seu controle. Acho que não nos cabe enquanto pais achar que somos donos do destino de nossos filhos. Eis minha resposta: _Na hora certa o caminho é que vai te escolher, filho..
2) Por que decidi fazer Medicina? Essa pergunta por ser mais recente é mais frequente mas a resposta é quase a mesma que aquela da Polícia. Vou ser médico porque eu TENHO que fazer isso! Sei lá que tipo de médico vou ser levando as sequelas de meu trauma encefálico mas vou fazer isso. Porque o caminho me manda percorrê-lo. Pareço fazer Medicina mas o que eu faço mesmo é cinema.
“Luís Márcio, eu quero que você preste atenção em tudo à sua volta! Ali tem um vidro e uma porta e atrás um posto de enfermagem. Fique atento a tudo que acontece em volta de você, isso será fundamental para a sua recuperação”. Foram as primeiras palavras do médico da UTI responsável pelo meu caso. Ele me disse isso ao pé do ouvido, eu ouvi e assimilei a missão mesmo sem entender direito o que era para fazer. Eu tinha aprendido com o protagonista fascista do Tropa de Elite que “missão dada era missão cumprida.”
Aquela altura eu tinha acabado de sair do coma e as sensações do saco preto ainda eram fortes, eu não sabia ainda que tinha levado um tiro, e muito menos aquele médico poderia imaginar que hoje eu estaria na faculdade de Medicina tentando ser um colega de profissão.
Talvez a recomendação fosse protocolo para lesões neurológicas…estar consciente e orientado depois de um coma de quase 60 dias de internação deve requerer um certo esforço. Mesmo sem saber por que eu cumpri a tarefa, olhava tudo à volta e apurava meus ouvidos. Vi enfermeiros, médicos e fisioterapeutas passando de um lado para o outro. Eu ouvia os sons dos aparelhos e os gemidos de dor de pacientes vizinhos.
Ainda sem entender o que estava acontecendo quis chorar, mas como eu tinha uma tarefa a cumprir, engoli o choro e foquei na missão: estar atento a tudo. Então lembrei da primeira vigilância que fiz como agente da PF, e por ser a primeira vez eu queria fazer tão bem-feito que anotei até os horários em que o cachorro do suposto traficante latia. Foi a vigília mais incrível de minha breve carreira como policial federal. Nunca outra vigilância foi tão tensa e realizadora como a primeira, eu anotava tudo! sempre com o um olho no relógio e outro no punho da Glock embaixo da minha perna, eu transpirava de medo e agradecia a oportunidade de finalmente viver aquela experiência única!
Mas agora o cenário era outro. A rotina da UTI é tediosa, torturante, não tinha arma e não tinha a eminência de um perigo ou um flagrante, os dias passavam iguais, a hora do banho, troca de lençol, hora das refeições, a hora da coleta de sangue, da gasometria arterial, das tediosas visitas e dos boletins médicos diários.
Só fui entender o sentido da recomendação anos mais tarde, quando muitas de minhas crenças começaram a ganhar forma. Aprendi que o universo dá os sinais que a gente precisa para entender que é necessário encarar uma mudança, e a sabedoria está em aprender a enxergar e interpretar esses sinais. Por exemplo, desde o tiro desenvolvi uma forte crença de que as coincidências não existem. Essas “coincidências” são nada mais que sinais facilitados que o universo entrega de mão beijada para você tomar as suas decisões. Para fundamentar minha crença, lançarei mão de duas “coincidências” que serviram como evidências determinantes para tal crença:
EVIDÊNCIA 1: Os planos funerários de Altamira
Em meados de 2015 eu cumpria o fim do meu estágio probatório na delegacia de Altamira, interior do Pará. Naquele tempo, Altamira era um lugar estranho. A população tinha pulado de 50 mil para 250 mil habitantes em função da construção da controversa usina de Belo Monte, eu olhava em volta e só via gente de fora como eu, era raro encontrar um paraense por lá nessa época, os aluguéis eram caríssimos e os serviços urbanos péssimos.
Altamira -PA em 2014: pagar a água, o aluguel ou o funeral?
Por algum motivo que nunca compreendi pipocavam na cidade anúncios de planos funerários. Minha hipótese era que pessoas que estão a muito tempo exiladas ou longe de casa começam a refletir sobre a morte. Eu tinha saído da casa dos meus pais em 1996, tendo morado em vários lugares como forasteiro e achava que não pertencia a lugar nenhum. Naquela época eu tinha uma preocupação: como ia ser o translado do meu corpo de volta a Minas se eu morresse em Altamira? Então comecei a ler a proposta de um plano funerário para deixar essa questão resolvida se algo acontecesse. Acontece que a vida adulta nos obriga a difíceis escolhas e entre pagar o plano funerário e o aluguel preferi pagar o aluguel. Não contratei o plano funerário, mas também não morri. E meses depois da minha remoção para Belém aconteceu o que aconteceu…
EVIDÊNCIA 2: Meus pensamentos do primeiro de junho de 2016
Eu me lembro de tudo o que aconteceu naquele primeiro de junho de 2016, com exceção do período entre às 21:00 e as 23:00 h., período em que fui baleado. Eu lembro de acordar cedo, ir para a academia e no fim do expediente ser acionado pelo plantão para conduzir uma presa em flagrante para o IML e depois para o presídio, lembro também de dirigir a viatura aborrecido com os seguintes pensamentos:
– Que trabalho de merda!! Tenho curso superior e duas pós-graduações para dirigir carro e escoltar preso?! Está na hora de começar a pensar em uma forma de sair disso, Luís Márcio, sei lá… fazer o Mestrado em Segurança Pública ou escrever uma ficção policial…” Eu ouvia “The day that never comes” do Metallica enquanto refletia essas “bobagens”.
E assim aprendi que o universo mostra o caminho, conspira sempre no rumo de nossos desejos, e que, portanto, é preciso ter cuidado com o que se deseja e saber também enxergar os ciclos que abrem e se fecham, e encarar as mudanças quando são necessárias. A vida volta e meia nos dá fatos cruéis, mas também segue seu curso, sendo que o caminho está nos sinais, em nossa capacidade de aceitar determinadas verdades.
Algumas coisas são incontornáveis: células, pessoas morrem, membros são amputados, corpos definitivamente sequelados, “amores” e amizades que se dissipam. O quanto antes a gente aceita, encara a mudança que o universo nos propõe, menos ficaremos apegados à perda e a condição de vítima, do contrário, seremos incapazes de encarar a mudança que o universo espera de nós, pois, se não posso mais ser o policial que eu sonhei ser, posso sonhar ser o médico que sei que posso ser.
Não tenho sabedoria para dar conselhos, mas se eu pudesse dar um daria logo dois: 1) Prestem atenção aos sinais! 2) Vivam as experiências que o universo lhe proporcionar,(inclusive os traumas!) pois tudo é experiência, aprendizado e o Novo só vem quando a gente deixa o Velho para trás. E, se possível,ouçam o tio Luís e fiquem longe do saco preto! Pois achar a saída de lá pode levar anos…