Preste atenção aos sinais!

 

 Semana 1: Preste atenção aos sinais!

 

 

 

A

“Luís Márcio, eu quero que você preste atenção em tudo à sua volta! Ali tem um vidro e uma porta e atrás um posto de enfermagem. Fique atento a tudo que acontece em volta de você, isso será fundamental para a sua recuperação”. Foram as primeiras palavras do médico da UTI responsável pelo meu caso. Ele me disse isso ao pé do ouvido, eu ouvi e assimilei a missão mesmo sem entender direito o que era para fazer. Eu tinha aprendido com o protagonista fascista do Tropa de Elite que “missão dada era missão cumprida.”

 Aquela altura eu tinha acabado de sair do coma e as sensações do saco preto ainda eram fortes, eu não sabia ainda que tinha levado um tiro, e muito menos aquele médico poderia imaginar que hoje eu estaria na faculdade de Medicina tentando ser um colega de profissão.

Talvez a recomendação fosse protocolo para lesões neurológicas…estar consciente e orientado depois de um coma de quase 60 dias de internação deve requerer um certo esforço. Mesmo sem saber por que eu cumpri a tarefa, olhava tudo à volta e apurava meus ouvidos. Vi enfermeiros, médicos e fisioterapeutas passando de um lado para o outro. Eu ouvia os sons dos aparelhos e os gemidos de dor de pacientes vizinhos.

 

Ainda sem entender o que estava acontecendo quis chorar, mas como eu tinha uma tarefa a cumprir, engoli o choro e foquei na missão: estar atento a tudo. Então lembrei da primeira vigilância que fiz como agente da PF, e por ser a primeira vez eu queria fazer tão bem-feito que anotei até os horários em que o cachorro do suposto traficante latia. Foi a vigília mais incrível de minha breve carreira como policial federal. Nunca outra vigilância foi tão tensa e realizadora como a primeira, eu anotava tudo! sempre com o um olho no relógio e outro no punho da Glock embaixo da minha perna, eu transpirava de medo e agradecia a oportunidade de finalmente viver aquela experiência única!

 

Mas agora o cenário era outro. A rotina da UTI é tediosa, torturante, não tinha arma e não tinha a eminência de um perigo ou um flagrante, os dias passavam iguais, a hora do banho, troca de lençol, hora das refeições, a hora da coleta de sangue, da gasometria arterial, das tediosas visitas e dos boletins médicos diários.

 

Só fui entender o sentido da recomendação anos mais tarde, quando muitas de minhas crenças começaram a ganhar forma. Aprendi que o universo dá os sinais que a gente precisa para entender que é necessário encarar uma mudança, e a sabedoria está em aprender a enxergar e interpretar esses sinais. Por exemplo, desde o tiro desenvolvi uma forte crença de que as coincidências não existem. Essas “coincidências” são nada mais que sinais facilitados que o universo entrega de mão beijada para você tomar as suas decisões. Para fundamentar minha crença, lançarei mão de duas “coincidências” que serviram como evidências determinantes para tal crença:

 

 

 

 

EVIDÊNCIA 1: Os planos funerários de Altamira

 

Em meados de 2015 eu cumpria o fim do meu estágio probatório na delegacia de Altamira, interior do Pará. Naquele tempo, Altamira era um lugar estranho. A população tinha pulado de 50 mil para 250 mil habitantes em função da construção da controversa usina de Belo Monte, eu olhava em volta e só via gente de fora como eu, era raro encontrar um paraense por lá nessa época, os aluguéis eram caríssimos e os serviços urbanos péssimos.

Altamira -PA em 2014: pagar a água, o aluguel ou o funeral?

 

 

Por algum motivo que nunca compreendi pipocavam na cidade anúncios de planos funerários. Minha hipótese era que pessoas que estão a muito tempo exiladas ou longe de casa começam a refletir sobre a morte. Eu tinha saído da casa dos meus pais em 1996, tendo morado em vários lugares como forasteiro e achava que não pertencia a lugar nenhum. Naquela época eu tinha uma preocupação: como ia ser o translado do meu corpo de volta a Minas se eu morresse em Altamira? Então comecei a ler a proposta de um plano funerário para deixar essa questão resolvida se algo acontecesse. Acontece que a vida adulta nos obriga a difíceis escolhas e entre pagar o plano funerário e o aluguel preferi pagar o aluguel. Não contratei o plano funerário, mas também não morri. E meses depois da minha remoção para Belém aconteceu o que aconteceu… 

 

 

 

EVIDÊNCIA 2: Meus pensamentos do primeiro de junho de 2016

 

 

Eu me lembro de tudo o que aconteceu naquele primeiro de junho de 2016, com exceção do período entre às 21:00 e as 23:00 h., período em que fui baleado. Eu lembro de acordar cedo, ir para a academia e no fim do expediente ser acionado pelo plantão para conduzir uma presa em flagrante para o IML e depois para o presídio, lembro também de dirigir a viatura aborrecido com os seguintes pensamentos:

– Que trabalho de merda!! Tenho curso superior e duas pós-graduações para dirigir carro e escoltar preso?! Está na hora de começar a pensar em uma forma de sair disso, Luís Márcio, sei lá… fazer o Mestrado em Segurança Pública ou escrever uma ficção policial…” Eu ouvia “The day that never comes” do Metallica enquanto refletia essas “bobagens”.

 

E assim aprendi que o universo mostra o caminho, conspira sempre no rumo de nossos desejos, e que, portanto, é preciso ter cuidado com o que se deseja e saber também enxergar os ciclos que abrem e se fecham, e encarar as mudanças quando são necessárias. A vida volta e meia nos dá fatos cruéis, mas também segue seu curso, sendo que o caminho está nos sinais, em nossa capacidade de aceitar determinadas verdades. 

 

Algumas coisas são incontornáveis: células, pessoas morrem, membros são amputados, corpos definitivamente sequelados, “amores” e amizades que se dissipam. O quanto antes a gente aceita, encara a mudança que o universo nos propõe, menos ficaremos apegados à perda e a condição de vítima, do contrário, seremos incapazes de encarar a mudança que o universo espera de nós, pois, se não posso mais ser o policial que eu sonhei ser, posso sonhar ser o médico que sei que posso ser. 

 

Não tenho sabedoria para dar conselhos, mas se eu pudesse dar um daria logo dois: 1) Prestem atenção aos sinais! 2) Vivam as experiências que o universo lhe proporcionar,(inclusive os traumas!)  pois tudo é experiência, aprendizado e o Novo só vem quando a gente deixa o Velho para trás. E, se possível,ouçam o tio Luís e fiquem longe do saco preto! Pois achar a saída de lá pode levar anos… 

 

Na semana 0…
Tudo começa com um gato preso num saco preto…
Aí ele acorda e  tenta achar a saída…

 

 

 

 

Saravá! 

 

Até a próxima sexta!

E luta desesperado para sair…

 

Não acha a saída mas o tio segue tentando…

 

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