Quando a coisa escolhe você!

Na semana passada falei de sinais e coincidências. Nessa semana me dei conta do tamanho de minha presunção e soberba. Fato é que ousei achar que poderia ensinar algo que não pode ser ensinado e ainda que pudesse ser não faria sentido algum. Digo por um motivo óbvio que só me dei conta agora: os sinais que fazem sentido pra mim podem não fazer sentido para os outros pois cada um tem uma história e uma trajetória única e o caminho cabe a cada um encontrá-lo. E por que estou falando disso? Porque essa semana um fato muito curioso me ocorreu. Eu nem lembrava de ter feito inscrição mas fiz uma prova de seleção para a Liga de Neurologia da minha faculdade. Fato é que fui aprovado e a Neurologia entra em minha rota bem no meio da minha graduação. Se esse será ou não meu caminho só o tempo e os sinais dirão, mas que seria uma narrativa incrível eu não tenho dúvidas! No fim das contas, talvez seja disso que nos ocupamos de fazer com nossas vidas: construir histórias e narrativas. Um pensamento que me ocorreu é que em breve estarei às voltas dos questionamentos de meus filhos sobre quais caminhos tomar como por exemplo que profissão seguir e qual vestibular prestar. Aqui meu lugar de fala ficará confuso mas vamos tentar. Sou engenheiro eletrônico e de telecomunicações. Bom…. não sei se sou isso de fato mas pelo menos o diploma guardado aqui na gaveta me permite dizer tal coisa. Fato é que eu nunca trabalhei nem com eletrônica e nem com Telecomunicações. Passei os 5 anos de faculdade querendo fazer cinema e finalmente quando me formei tentei a sorte na produção cinematográfica. Consegui ser o produtor executivo de um filme que quase ninguém viu e aspirante a roteirista com vários projetos não executados No cinema tive um trajetória meteórica que me levou do Nada ao Lugar Nenhum. Quer dizer, minto. Eu fiz um concurso pra ANCINE- Agência Nacional do Cinema, passei e virei um eficiente burocrata do governo federal… Certas perguntas eu só consegui responder depois de voltar do Saco Preto e duas das mais frequentes vou tentar responder aqui: 1)Por que decidi entrar para a Polícia Federal ? Em 2011 eu era um servidor dedicado e eficiente e dedicado do serviço público federal com estabilidade conquistada antes dos 35 anos de idade. Eu morava na Zona Sul do Rio de Janeiro e tinha um vida tranquila. Tão tranquila que um dia alguma coisa se quebrou dentro de mim e não vi mais sentido em nada do que eu fazia.Fizcomo todo bom barnabé que quer mudar de vida faz. Entrei no site da UnB/CESPE pr ver os concursos que iam rolar e encontrei o concurso nacional para agente da Polícia Federal. Li o edital e no dia seguinte eu estava matriculado em cursinhos preparatórios e comprei uma barra que instalei na porta do quarto para treinar pra prova física.

Eu não sabia explicar por que queria tanto aquilo mas não conseguia racionalizar muito. Ser agente da Polícia Federal era algo que eu TINHA que fazer. Me entreguei ao projeto e fui pra cima dos estudos pois me parecia a última chance de encontrar SENTIDO no serviço público. Eu só fui entender o que eu estava fazendo anos mais tarde. Em 2013 eu já tinha tomado posse e atendia no plantão da Delegacia de Polícia Federal de Altamira-PA quando me aparece um senhor idoso com roupas rasgadas e um chapéu destroçado dizendo que é agricultor e que quer comprar um espingarda para caçar. Meu primeiro desafio como policial foi explicar para aquele senhor para que servia a Polícia Federal, como era a regulação da aquisição de armas de fogo e que o que ele pretendia com a arma era praticar um crime ambiental. Depois falei do Estatuto do Desarmamento e no fim da conversa ao invés de comprar uma espingarda nova o convencia entregar uma arma velha para a Campanha de Desarmamento. E foi nesse dia que eu entedi o que estava fazendo…

Eu finalmente fazia parte de algo em que eu verdadeiramente acreditava! Nesse dia lembro de voltar para o alojamento tão entusiasmado que me dei um presente no: fiz um miojo como ovo pra jantar. Meu envolvimento com o Estatuto do Desarmamento havia começado na campanha do plebiscito pelo fim da comercialização de armas de fogo. Foi a primeira vez que me envolvi com militância organizada. Nós perdemos aquele pleito para os conservadores. Não foi difícil assimilar aquela derrota afinal eu sempre fui ciente que pertenço a uma diminuta parcela privilegiada na qual predomina o pensamento conservador. Perdemos mas vida que segue e “a luta continua, companheiro…” E decidi lutar dentro do sistema. As pessoas diziam que a polícia não era lugar pra mim e que era lugar para pessoas cruéis, violentas e corruptas. Mas eu queria! Queria por que queria! Eu sentia que tinha uma coisa ali e essa coisa tinha me escolhido. Ë maravilhoso quando a coisa nos escolhe! Fazer escolhas nos dá a doce ilusão de que estamos no controle. Mas fato é que quase nunca estamos no controle. As coisas são o que são e não que poderiam ser nem o que talvez fossem. Para certas coisas a gente não escolhe a gente é escolhido… Por isso quando um de meu filhos me perguntar que caminho seguir vou responder que talvez não seja de seu controle. Acho que não nos cabe enquanto pais achar que somos donos do destino de nossos filhos. Eis minha resposta: _Na hora certa o caminho é que vai te escolher, filho..

2) Por que decidi fazer Medicina? Essa pergunta por ser mais recente é mais frequente mas a resposta é quase a mesma que aquela da Polícia. Vou ser médico porque eu TENHO que fazer isso! Sei lá que tipo de médico vou ser levando as sequelas de meu trauma encefálico mas vou fazer isso. Porque o caminho me manda percorrê-lo. Pareço fazer Medicina mas o que eu faço mesmo é cinema.

Porque tudo é cinema! Saravá, pessoal!

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